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Jacytan Melo Produções_Atrações Exclusivas_2013/2014

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O poder transformador da arte


Gustavo Dudamel
Bem sucedido programa de educação musical venezuelano é exportado para países como Estados Unidos, Brasil e Escócia

No debate sobre o valor das aulas de artes nas escolas, um argumento poderoso vem de um lugar inusitado. Muitos já ouviram falar do petróleo, das belezas naturais, dos altos índices criminais e dos governantes excêntricos da Venezuela. Mas o país também abriga el sistema, uma rede de orquestras juvenis fundada em 1975, que tirou um enorme número de crianças dos guetos superpovoados e os transformou em músicos profissionais bem sucedidos. Sua principal estrela é Gustavo Dudamel (foto), que, entre outras coisas, é o diretor musical da Filarmônica de Los Angeles. Em janeiro, ele começa um ambicioso programa para honrar o centenário da morte de Gustav Mahler, regendo todas as sinfonias do compositor tanto com a Filarmônica californiana, quanto com a Orquestra Sinfônica Simón Bolívar, a orquestra da Venezuela que o formou.

O conceito do sistema está se expandindo, com novos projetos no Brasil, na Escócia, e outros países com comunidades socialmente isoladas. A reputação quase mitológica do programa foi reforçada pelo entusiasmo de Claudio Abbado, Sir Simon Rattle e outros; e acompanhada de um pensamento otimista das sociedades ricas, de que a arte pode curar todos os males. Seu fundador, José Antonio Abreu, chegou a ser cotado para o Prêmio Nobel da Paz. Ainda assim, nunca houve um estudo imparcial de seus métodos e resultados. Changing Lives: Gustavo Dudamel, El Sistema, and the Transformative Power of Music (“Mudando vidas: Gustavo Dudamel, El Sistema e o Poder Transformador da Música”), de Tricia Tunstall é o primeiro documento a descrever o processo que, nas palavras de Dudamel, “cria milagres”. Tunstall, uma professora norte-americana de música foi à Venezuela com Jamie Bernstein, filha do compositor Leonard Bernstein, e recolheu dados, que a fazem apoiar as afirmações de Dudamel com números.

Numa nação de 29 milhões de pessoas, ela relata que cerca de 370 mil crianças agora participam do sistema, cantando e tocando música clássica por várias horas após as aulas escolares. O programa tem um orçamento anual de US$ 120 milhões, e a maior parte desse orçamento vem do governo. Tunstall diz que o índice de evasão no programa é de menos de 7%, enquanto a evasão escolar é de 25%. Embora seja impossível saber onde o sistema é responsável pela criação de bons estudantes, ou se ele atrai aqueles que são naturalmente disciplinados, fãs do programa dizem que os padrões são altos e que a atividade musical mantém os jovens fora das gangues. Edicson Ruiz, mandado por sua mãe ao núcleo de Caracas aos 12 anos, agora toca baixo na Orquestra Filarmônica de Berlim. Gabriela Montero, que foi solista da Sinfônica Bolívar aos oito anos, hoje é uma renomada pianista.

Além de cultivar os talentos musicais, Abreu garante que seus alunos toquem com instrumentos de valor não muito elevado, e alguns dos alunos aprenderam até mesmo a construir instrumentos, o que os permitiria seguir uma carreira como luthiers. Abreu explicou a Tunstall que se inspirou num pianista de sua cidade natal, Barquismeto, que transcreveu a Sinfonia Júpiter, de Mozart, para sete pianos. “Sempre tocávamos uns para os outros, e para outras pessoas, e adorávamos. Nunca tive a pressão de um professor severo sobre mim”.

Como estudante do Conservatório de Caracas, ele rejeitou a rigidez para conquistar o que chama de “transformação social por meio da música”. As crianças da primeira orquestra eram da camada mais pobre da população, e Abreu persuadiu políticos de todas as ideologias a ajudarem na expansão do programa para todo o país. “Ninguém diz ‘não’ ao maestro”, conta Tunstall. Enquanto isso, áreas problemáticas de Los Angeles e Nova York também receberam núcleo do programa. Só o tempo dirá se essas escolas sobreviverão sem as lideranças carismáticas, mas o Rio de Janeiro e Glasgow estão acompanhando o progresso atentamente.

Fontes: The Economist - The music man